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08 xaneiro 2025

Eça de Queiroz, camiño do Panteón Nacional

La vida del escritor portugués Eça de Queiroz comenzó en la clandestinidad en Póvoa do Varzim en 1845, nacido de “madre desconocida”, y, de alguna manera, acabó este miércoles en el Panteón Nacional, en Lisboa, rodeado de otros grandes de la historia de Portugal. Aunque su existencia biológica concluyó en 1900, sus restos han peregrinado por varias ubicaciones hasta llegar a la iglesia de Santa Engracia, donde las principales autoridades del Estado le han rendido un homenaje que puede considerarse un punto final. El autor de Os Maias llegó adonde tenía que llegar, “el lugar de los inmortales”, en palabras del presidente de la República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Eça de Queiroz reposará a partir de ahora junto a otros portugueses que protagonizaron la política o la cultura, entre otros, una fadista (Amália Rodrigues), un futbolista (Eusebio) y un general asesinado por combatir la dictadura (Humberto Delgado). Una compañía de glorias indeseables, para algunos miembros de la familia del escritor que se oponían al traslado y que fracasaron en su intento de vetar la mudanza en los tribunales, como defendían la mayoría de los 22 bisnietos. En junio de 2024 la justicia zanjó la cuestión y avaló la propuesta de la Fundación Eça de Queiroz, que retomó la organización de una ceremonia que había tenido que aplazarse en 2023.

En la sesión institucional han participado el jefe del Estado, el primer ministro Luís Montenegro y las máximas autoridades del país. Durante una larga ceremonia, actores y académicos leyeron pasajes de sus obras más célebres como El crimen del padre Amaro o As Farpas, mientras una guardia de honor escoltaba el ataúd. En mitad de la pompa, el escritor y presidente de la Fundación, Afonso Reis Cabral, recordó que Eça de Queiroz “llega al Panteón llevado a hombros por la gente que tanto le ha leído, tanto le lee o leerá”. “Continúa siendo leído en el siglo XXI, traducido, estudiado por los académicos, pero también ha sido caricaturizado, llevado al teatro, convertido en estatua e incluso figura pop; es la prueba de la posteridad”, destacó.

Los restos del novelista dieron algunos tumbos. Durante nueve décadas estuvo en el panteón de sus suegros, los condes de Resende, en el cementerio del Alto de São João de Lisboa, pero el deterioro llevó a la familia a trasladarlos en 1989 a una tumba en Santa Cruz do Douro, en el municipio de Baião, donde se había rehabilitado una quinta que se convirtió en sede de la Fundación Eça de Queiroz. “Este justo homenaje ya podría haber ocurrido hace años, teniendo en cuenta que estuvo en una sepultura provisional durante casi cien años”, declaró la ex ministra de Cultura y especialista queirosiana, Isabel Pires de Lima, a la cadena RTP.


Eça de Queiroz murió a los 54 años en París, donde era cónsul. A pesar de su labor como diplomático, tuvo tiempo de crear uno de los mejores legados de la literatura portuguesa del XIX. “Es suya la idea del país que aún tenemos”, destacó su bisnieto Afonso Reis Cabral. “Es el escritor que nos descubre nuestros vicios y el que mejor denuncia nuestros defectos colectivos”, subrayó el presidente de la Asamblea de la República, José Pedro Aguiar-Branco.

La sátira fue uno de sus rasgos, que cultivó tanto en escritos periodísticos como en tertulias como la formada por el grupo Vencidos por la Vida, donde se integraron algunos de los intelectuales más brillantes de aquel siglo como el historiador Joaquim Pedro Oliveira Martins o el escritor José Duarte Ramalho Ortigão, con quien escribió El misterio de la carretera de Sintra, publicado como cartas anónimas en el Diário de Notícias durante el verano de 1870.

El propio Eça de Queiroz fue un personaje repleto de contradicciones y extravagancias. Vestía como un dandi y vivía por encima de sus posibilidades mientras le recomendaba a su esposa, Emília de Castro, que fuese tacaña. “Los tiempos son sombríos, la avaricia es un deber, una imperiosa necesidad”, le urgía por carta en 1898. Entretanto el escritor seguía eligiendo caras mansiones para veranear y se alojaba en hoteles de lujo cada vez que viajaba. Su asfixia económica, a pesar de su salario oficial y sus ingresos literarios, fue permanente.

El gran misterio de su vida fue, sin embargo, la relación con sus padres, que se casaron cuando el escritor tenía cuatro años. En el momento de su nacimiento, su madre, Carolina Augusta Pereira, se instaló en la casa de un pariente en Póvoa do Varzim para evitar el escándalo de dar a luz soltera en su localidad. Eça de Queiroz fue registrado con el apellido de su padre, el juez José Maria Teixeira de Queiroz, pero como hijo de “madre desconocida”. Educado por amas, abuelos, tíos e internados, apenas convivió con sus padres y sus hermanos. Un aspecto biográfico que marcó su universo literario. Los especialistas en su obra destacan la ausencia de figuras maternas en sus novelas. “Y si las hay”, puntualizó Isabel Pires de Lima a la revista Sábado, “son problemáticas”. De las múltiples cartas intercambiadas por Eça de Queiroz con amigos y allegados, ninguna fue dirigida a su madre ni remitida por ella.

Artigo completo de Tereixa Constenla en El País (08.01.2025)

15 novembro 2022

Eugénio de Andrade: Prefácio a Os amantes sem dinheiro, 1950

 É todo um mundo confuso, de penetração difícil, tanto mais difícil quanto mais pretendo pô-lo claro, transparente. Não sei se houve primeiro lágrimas ou o som do harmónio. Em todo o caso lembro-me de duas casas — uma na Eira, outra no Adro. Sei que as lágrimas e as estrelas eram na casa da Eira e a música do harmónio na casa do Adro.

Minha mãe disse-me que eu nasci na casa do Adro, e só um pouco mais tarde, quando a família a abandonou de todo, nos mudámos para a casa da Eira. Ambas eram casas pequenas, térreas, com duas divisões, mais que suficientes para mãe e filho viverem. Ainda há poucos anos vi essas casitas onde eu e a mãe começámos a ser um do outro, e pareceram-me incrivelmente pequenas, mais pequenas mesmo que certas salas de brinquedos que os meninos ricos têm na cidade.

Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e a faca embrulhados num pano de linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca ao abrir — é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.

Ora um dia, quando me aproximei da arca — sabe-se lá se para dar a entender a minha mãe que queria pão — estava lá em cima uma coisa que eu nunca tinha visto. Em bicos de pés, deitei-lhe a mão e puxei. Então o que sucedeu foi maravilhoso: de dentro saiu um som bonito, mais bonito ainda do que a voz de minha mãe, que certamente eu já ouvira cantar. E talvez não, talvez eu não tivesse ouvido ainda minha mãe cantar. A mãe era nesse tempo uma mulher triste.

Da casa da Eira só me lembro do quartito que dava para a cozinha. Um tabique separava-nos da casa da Ti Ana, uma velhota a quem minha mãe às vezes me deixava a guardar. Foi nesse quarto que a mãe me ensinou a rezar:

Senhora Sant’Ana,

Tapai-me cum véu,

que eu sou pequenino,

levai-me prò Céu.

Mas eu gostava mais de me meter com a velhota do que das orações:

— Ó Ti Ana! Ti Ana!

Faça-me um favor!

Que é? — perguntava a boa mulher, fingindo ignorar a resposta:

— Empreste-me a pele

pra fazer um tambor!

Mas isso foi bastante depois. Antes das orações e das brincadeiras com a Ti Ana, lembro-me das lágrimas. Nunca mais voltei a chorar assim.

Certa manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar. — Ó mãe, mãe… — Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fechada. — Ó mãe, mãe… — E a casa deserta. Pelas frinchas largas da porta via a manhã lá fora. Era uma manhã de sol quente, talvez de julho, talvez de agosto. Devia haver medas de palha na eira em frente. Mas os meus olhos mal viam, estavam rasos de água e de angústia. — Ó mãe, mãe… — E de repente, na manhã clara, começaram a cair estrelas pequeninas, estrelas verdes, vermelhas, estrelas de oiro. As lágrimas caíam-me pela cara. — Ó mãe, mãe… — O nariz esmagado contra a porta, os olhos muito abertos, vendo através das frinchas as estrelas caindo, umas atrás das outras. — Ó mãe, mãe…

E ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, pois a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos.

13 setembro 2022

José Miguel Fernandes Jorge: Com o espírito da casa




Acabei hoje o sabonete cujo uso iniciaste aquando 
o teu último banho cá em casa. Ficaram coisas que 
te pertencen e que não sei se deva guardar,
a saber: um candeeiro, um desenho, uma fotografia.
Outras coisas ficaram
alguns discos e já não sei que livro. Não ferem
tanto. Há ainda a memória da pele, o amarelo dos
olhos e algumas expressões do teu português falado.
Mas estas últimas coisas já se confundem com o
espírito da casa, quero dizer-te com a poeira da
casa.

11 setembro 2022

Pequena elegia chamada domingo, de Eugénio de Andrade

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.
 
Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
 
 

27 agosto 2022

Testamento, de Ana Luísa Amaral

 Vou partir de avião

E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos

Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.

04 agosto 2022

Fernando Pessoa

Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.
Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.
Por isso ele andava
depressa, depressa
p’ra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.
Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.

25 maio 2022

Cesário Verde: "De tarde" (1887)

James Tissot: Holyday (1876)
 Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E, que sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
 
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoilas.
 
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
 
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

01 outubro 2021

Rosa Branco: Poemas para escolha.



Onde não haja eira nem jeira
nem folha de figueira
nem pedra de sal
nem coisa que faça mal
só um raminho de vento
para nos salvar.



Dormíamos por cima das galinhas
à beira das pombas
das pilhas de lenha que chegavam à janela
com os cheiros de maio.
Às vezes um trovão
fazia o santo levantar da cama
tomar o café à pressa
meter-se ao caminho para afastar a tempestade
do medo dos coelhos e da avó.
Lembro-me da trança balouçando
à luz da lamparina
da prece espalhada pelo quarto
e eu encolhida no calor da cama
para não ouvir ladrar os cães da noite
sem saber que um santo os levava para lá do monte
onde nunca houve eira nem jeira
nem folha de figueira
nem o tempo que nos conta os dias
só um ramo de vento que floresce à janela
por entre a cinza da madeira
e o amor da Avó.


02 abril 2021

Sophia Andresen: Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal

J. Moreno Carbonero: Conversión del Duque de Gandía


A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
 
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
 
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória a luz o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
 
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

10 xullo 2020

José Manuel de Vasconcelos: "Carpe diem"

Henry Scott Tuke: Sol de xullo (1913)



Depois será já tarde
não faltarão rosas secas no cesto dos papéis
recusaremos o perdão pelas faltas
tanto tempo assumidas
O vulcão dos dias não passará de um depósito
de lava petrificada
cada linha do corpo será um requiem surdo
e a moral fado barato de costas para o mundo
A vida é um aluguer de curta duração
licença apenas para atravessar a porta
sem direito a retorno
Não precisaremos sequer de mais luz
quem veio viu e entregou-se ao vento
esqueceu todas as chagas
mas a dor não passou

29 agosto 2019

Johannes Grenness: Escena de mar con rapaz

 De Alberto Caeiro: O guardador de rebanhos

Como quem num día de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo... 

21 agosto 2019

Quina e o garoto

-Já ceaste? -disse, sucintamente, com aquela sua busquidão orgulhosa que era antes humildade, desejo de tolerância, apelo de harmonia. Ele ergueu os olhos, que se voltaram para a Quina, devagar, como se o entendimento tardasse em achar a direcção daquela voz, o sentido daquelas palavras. Eram uns olhos apagados, mortos, sem a sua radiosa expressão de malícia, e pareciam vasados e sem cor. Ela sentiu esfriar-se-lhe o coração.

-Então que foi? -pergunotou, agora cheia de alarme e mais curiosa, até do que perturbada.

Como resposta, o rapaz começou a chorar. Um homem de trinta anos que chora, ou é um imbecil ou é um poeta; a menos que uma dessas razões que desabam como uma avalanche sobre os temperamentos mais imutáveis venha convulsionar-lhe a alma, arrancando dela as comoções ais terríveis -mais terríveis, ainda por serem isoladas e surgirem num campo sem essa prevenção constante, proporcionada pela experiência do pessimismo, que é escudo do infortúnio e que melhor conhecem as mulheres. Quina compreendeu  que alguma coisa de único acontecera na vida daquele homem, e sentou-se defronte dele para o interrogar. O que soube deixou-a perplexa, tímida para julgar, e dorida por aquele lastimoso relato.
Agustina Bessa Luis: A sibila (p.132)